quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O último adeus

O tempo passa por mim, nem me dou conta, quando finjo que vou me levantar pra ver as horas, caio novamente no mesmo lugar.
Hoje é dia de ficar quieta dentro de mim mesma, deixar o tempo ir onde acha que deve.
Fico aqui olhando de longe seus cabelos longíguos e imaculadamente brancos baterem desordenadamente a medida que a sua fome voraz engole tudo.
Ele passou por aqui a umas horas atrás, engoliu coisas que me pertenciam.
Não adianta chorar, engoliu, não tem volta.
Ando portão a fora, na chuva, sem preocupação alguma.
Tiro as sandálias, sinto o chão molhado e frio, penso que talvez essa seja a melhor forma de trazer-me a realidade, afinal, o tempo não vai parar de engolir minhas coisas, até o dia em que o próprio me engula.
Fico aqui recebendo pingos gélidos na nuca enquanto olho os meus pés, a chuva que cai no telhado faz um som
gostoso, acalma. As águas deslizam pelas bicas e fazem redemoinhos no ar até encontrarem o chão e deixar-se rolar por si só infiltrando tudo que acham pela frente.
Cai uma folha da árvore, o silêncio que está em meu coração é tão grande que julgo ouvir o barulho quando toca o chão, uma folha morta, um barulho seco, um soco de punhos fechados em meus tímpanos. Estranho, como toda a nossa vida. Repentina, como toda boa morte.



**Os longos cabelos brancos de fome insaciável, vulgo tempo, levou de mim hoje o meu avô.
Onde ele está agora, não tem mais dor. Eu o amava, do meu jeito torto, espero que não tenha partido antes de saber disso. Esteja em paz, Adeus.

Nenhum comentário: