quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O último adeus

O tempo passa por mim, nem me dou conta, quando finjo que vou me levantar pra ver as horas, caio novamente no mesmo lugar.
Hoje é dia de ficar quieta dentro de mim mesma, deixar o tempo ir onde acha que deve.
Fico aqui olhando de longe seus cabelos longíguos e imaculadamente brancos baterem desordenadamente a medida que a sua fome voraz engole tudo.
Ele passou por aqui a umas horas atrás, engoliu coisas que me pertenciam.
Não adianta chorar, engoliu, não tem volta.
Ando portão a fora, na chuva, sem preocupação alguma.
Tiro as sandálias, sinto o chão molhado e frio, penso que talvez essa seja a melhor forma de trazer-me a realidade, afinal, o tempo não vai parar de engolir minhas coisas, até o dia em que o próprio me engula.
Fico aqui recebendo pingos gélidos na nuca enquanto olho os meus pés, a chuva que cai no telhado faz um som
gostoso, acalma. As águas deslizam pelas bicas e fazem redemoinhos no ar até encontrarem o chão e deixar-se rolar por si só infiltrando tudo que acham pela frente.
Cai uma folha da árvore, o silêncio que está em meu coração é tão grande que julgo ouvir o barulho quando toca o chão, uma folha morta, um barulho seco, um soco de punhos fechados em meus tímpanos. Estranho, como toda a nossa vida. Repentina, como toda boa morte.



**Os longos cabelos brancos de fome insaciável, vulgo tempo, levou de mim hoje o meu avô.
Onde ele está agora, não tem mais dor. Eu o amava, do meu jeito torto, espero que não tenha partido antes de saber disso. Esteja em paz, Adeus.

sábado, 22 de agosto de 2009

Sábado a noite..

Amar requer paciência e bom humor, é extramamente natural que a gente sinta medo e procupação por aquilo que se chama futuro.
Estou em uma fase maravilhosa da minha vida, mesmo tendo que matar um leão a cada dia para sobreviver...Família, relacionamento em geral, trabalho e estudos...cada um tem o seu fardo, aquilo que escolheu pra si ou fora escolhido.
Um vento que sopra no pé e o faz gelar, algumas conversas que chegam aqui - sussuradas, quase mudas, a portas fechadas - um carro enguiçado na esquina tenta em vão sair do lugar, é o que preenche o meu sábado. O leão que lutei agora a pouco ainda está suspirando, é nomal que queira descansar para me enfrentar mais tarde, não tão enérgico quanto gostaria, mas é questão de tempo pra que ele volte.
Enquanto isso, descanso. Não temo, tenho o meu anjo agora.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

era o que eu queria dizer...

Seria mais fácil, como 1+1 são 2 se não estivesse acontecendo comigo. Seria mais fácil, como todos os dias nesse cotidiano de coisas mecanizadas, se não fosse com meus pensamentos infinitos.
O passado não se dá pra negar e simplesmente passar borracha.
Não é que eu ainda goste, não é que eu ainda queira como um dia quis, minha realidade hoje é outra, outro alguém, outros planos. Mas, quando vejo quero conversar, quero lembrar de coisas engraçadas que nos aconteceram e me sinto feliz por isso.
És o "objeto" que me faz lembrar uma época muito gostosa da minha vida, seria injusto e cruel negar isto. Fico triste que suas escolhas não tenham dado certo e fico feliz pela tua filha estar tão bem, ela é linda e bem se vê que não é só na aparencia física que vocês tem traços iguais, como tambem na personalidade.
Você nunca vai chegar a ler isso e eu escrevo aqui como uma tentativa frustrada de acalmar minha cabeça desses pensamentos idiotas de que eu tinha que ter dito isto tudo a você.
Mas, o que saíram foram palavras vazias, sem sentido até pra mim. Então, como outra tentativa frustrada, vou pedir desculpas por não ter dito o que merecia ouvir. Que estas desculpas possam ecoar e chegar até você, algum dia.

Karla Domingos

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Itinerário


Com a cabeça encostada na janela do ônibus, reparo em toda rua que passa rápido, algumas são estreitas outras mais largas, brota de cada uma delas frêmitos de vida.
Olhando pra cada um do ônibus agora, imagino quantas histórias, aprovações, derrotas, sentimentos guardados, medos e palavras não ditas, sufocadas, que cada um leva dentro de si.
O ônibus vai com pressa, mas na velocidade que pode, volta e meia ele vai ter que pegar mais um pelo caminho e isso faz com que pare várias vezes, meu estômago embrulha um pouco nesse frenêsi de paradas repentinas, mas bem ou mal, a mente continua.
Parou no sinal, duas pessoas se aproximam e fazem malabares. As voltas que os pinos dão no ar me remetem os ponteiros do relógio, lembro que não gosto de relógio...nunca gostei. Pego o celular e olho há quanto tempo já estou no coletivo, que pára mais uma vez e dois rapazes pulam a roleta.
O que faz uma pessoa burlar as regras? A miséria ou a falta de vergonha na cara? Talvez as regras existem mesmo para serem burladas.
Volto de novo para janela, vejo pessoas correndo e me imagino perguntando à elas "porque correr tanto?", e no meu devaneio a pessoa responde "pra se ter saúde, horas!". Saúde...Hãm, uma boa resposta, se fosse comigo eu responderia sem pestanejar "Pra tentar ficar gostosa, claro!"
Detenho-me nas pessoas mais uma vez, tem uma criança sorrindo no colo da mãe, bem, esta última não está sorrindo. Aliás, tem o rosto abatido como se o dia tivesse sido um daqueles bem bravos que a gente só quer poder chegar em casa logo, tomar um banho e dormir. A criança continua a rir, como se debochasse do cansaço da mãe "Ei, você se cansou me carregando o dia inteiro e eu continuo bem, trouxa, trouxa, trouxa". É claro que isso é mais uma das (várias)viagens da minha cabeça, o que fez até, discretamente, que eu desse um sorriso contido no canto da boca.
O ônibus vira à esquerda, na esquina vê-se dois mendigos deitados à sombra de uma árvore.
Há quem diga," o sol nasceu pra todos", eu não discordo. Mas, é fato que a sombra é para poucos.
É claro que se fosse a sombra propriamente dita os mendigos seriam uns puta sortudos.
Esses pensamentos todos me fizeram refletir se um dia vai existir um pedaço de sombra pra mim. O sol ainda está a pino na minha vida e o meu cantil de água ameaça secar.
Balanço a cabeça tentando afastar as coisas tristes que me vêm, fecho os olhos...Sinto o vento. Como é bom sentir o vento batendo, mexa por mexa dos meus cabelos fazendo-os dançar desordenados em meu rosto, dando chicotadinhas de leve na ponta do nariz. Isso me faz sentir viva, como aquele beijo que eu recebi antes de entrar no ônibus.
Quero poder ver a minha vida chegar ao seu destino assim como esse ônibus, que depois da curva, mostra que é hora de descer e pisar enfim, com os dois pés no chão.

Karla Domingos

O que se diz é o que se cria

Será que as pessoas sabem o poder que as palavras têm? O quanto aquilo que dizem pode arruinar os sonhos de outras pessoas, causar dor... Sofrimento.

Será que as pessoas medem o que dizem, pensam no que os outros vão sentir e levam em conta as opiniões que não sejam as suas próprias?

As palavras, mesmo as mais simples e de fácil compreensão, são capazes de grandes feitos.

Na bíblia diz que com umas poucas palavras pronunciadas por Deus o mundo foi criado. “Que haja luz”, foi assim que as trevas se dissiparam, poucos tem o dom de espantar as trevas, que existem em nós, com apenas algumas palavras.

Felizes são aqueles que pensam antes de falar, que sabem o que dizer e principalmente compreende que cada vez que a sua língua desenrola, para que se diga algo, é um mundo que está prestes a se formar de sua boca.

Karla Domingos