quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Das minhas vagas observações...


Olhando daqui tem uma menina sentada no tapete, ela lê um livro encostada nas almofadas e ri sozinha. Não sei qual livro esta a ler, meu óculos já não me serve mais como da primeira vez que o pus, hora de trocá-lo...Como tudo aquilo que já não nos serve mais.
Enfim, detenho-me na garota. Ela é uma daquelas meninas esquisitas que entram e as outras ficam olhando e dando graças a Deus por não terem nascido igual. Não falo isso de ruindade, ai de mim pensar assim, mas eu vi com esses olhos quase cegos os olhares furtivos de umas pras outras com um sorrisinho sacana no canto da boca.
Porém, cada folha em que a menina do tapete vira de seu livro é um sorriso, um afago nos cabelos, um apertão na coxa direita. Da-se para perceber o jeito como enche os pulmões devagar quando respira, daquele modo que até mesmo para uma semi-cega como eu enxergar o óbvio, ela lê um romance. Talvez para as meninas ela seja realmente uma esquisita, talvez pros garotos ela não seja interessante, mas enquanto lê seu livro, é fada, flor, é feitiçeira, é princesa, é amada, é desejada.
Toca o sinal, a menina fecha o livro e sai da biblioteca, o mundo de fantasia acabou, mas o sorriso dela ainda continua...Quem sabe depois daquela porta algo bom a espera, além dos olhares atravessados e dos comentários maldosos.
Eu que já não acredito mais em princípes encantados e já tenho a paz de quem se basta por si mesma, deixo entertê-me com estes fatos adolescentes de que tenho saudade, mesmo sabendo, desde esta época não sabia o que a vida queria de mim e nem eu sei ainda o que quero dela, deixo assim ficar subtendido, afinal "o que se leva da vida é a vida que se leva".


Karla Domingos

terça-feira, 1 de setembro de 2009

As várias outras

Meus pensamentos são quebra-cabeças de 1milhão de peças. É extremamente difícil achar os encaixes, aliás, quando estou quase terminando desfaço tudo para começar novamente, porque as figuras formadas me parecem sem sentindo, mesmo estando as peças nos lugares devidamente certos.
Tenho andado confusa todos esses anos, parte de mim ainda vive no passado, a eterna criança de pés descalços brincando de pique-esconde e chorando pelo último pedaço de chocolate que não está mais guardado no fundo da geladeira.
A outra parte fica escondida, uma hora ou outra ela aparece, faz cara de fatal muda tudo em minha vida e sai sem dizer adeus. Outra hora ela se esvai em sonhos repetitivos e indecisos. Há vezes em que ela resolve ser adulta, ter responsabilidades, mas essa não dura muito, logo volta pra dentro de mim mesma, coloca os pés pra cima e diz que está cansada demais para fazer qualquer coisa.
É estranho pensar que sou várias dentro de uma só, ao mesmo tempo que sou flor sou espinho, ao mesmo tempo que ardo em chamas, fico gélida.

Então, peço que não me entenda, não hoje, não agora! Deixe-me ficar assim, em silêncio olhando a face de cada uma que existe dentro de mim e entendendo o que cada uma quer me dizer, com seus medos, prantos e servegonhices.

Karla Domingos