sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Há de se concertar uma asa?



 Não sou dona da verdade, mas também, como poderia de sê-la? Conto mentiras, não o tempo todo, mas elas saem por assim dizer, soltas como folhas ao vento, que de tão miúdas seriam  imperceptíveis, se não fosse o próprio vento a desalinhar os cabelos e pelas minúsculas partículas de poeira a quase cegar-te os olhos.
Eu não tenho a pretensão de cegar-te, disse isso no pequeno papel que escrevo como forma de entreter minh'alma triste, que anda por aí com uma das asas na mão, um querubim deficiente. Imagine a tristeza deveras que é ser criado para voar e perder-se uma asa? Tantos lugares inalcançáveis, intransponíveis que talvez nunca mais sejam vistos novamente.
Mas, quem me conhece sabe que não usaria de mentiras para prejudicar um amigo.
Quem me conhece sabe o que se passa no mais fundo âmago do meu ser.
Vejam só, que calúnia do destino!

__ Meu querubim, porque quebraste uma asa?
__ Estava voando na imensidão azul do céu, tendo a certeza em meu coração de que aquela que eu mais queria cuidar, para que seu pé não tropeçasse em uma pedra, confiasse que não a quero mal. Mas, tacaram pedras em minha pobre asa, vejam só! Despenquei cada vez mais e mais fundo. Quando cheguei ao chão percebi com surpresa, aquela em que eu cuidava e queria bem estava assistindo a tudo e não me socorreu.
Vi-la de mão dada com meu agressor a perder-se no horizonte.
Enquanto eu, pobre criatura agora aleijada, daqui vejo as sombras daqueles que ainda pouco foram embora. Logo eu, que a ampararia em qualquer queda.
E agora, o que se há de fazer?
__ Não há nada a se fazer pois não a nada a se esperar das pessoas, a não ser o esquecimento. Crê em mim! É menor o sofrimento de não se decepcionar.
E antes de cuidar de alguém assegura-te que cuidas de ti mesmo, para que ninguém o acerte com outra pedra . Mas, se caso não concerte tua asa não fique triste! Pois, irás comprovar minha teoria de que as asas dos anjos devem ser igual a confiança dos homens, uma vez quebrada não há de ser restaurada, não há de voltar a ser como d’antes.


KARLA DOMINGOS