Olha, se eu contar a fúria que corre em meu sangue, a tempestade que me acomete, me invade e tenta competir com a real tempestade que, no momento, faz barulho na janela, eu lhe atormentaria.
A chuva está caindo lá fora, mas aqui internamente, meu coração está acelerado, características de quem não sabe o que vem, tem medo do que possa vir, ao mesmo tempo que esperou por isso longos anos. Esperar por tanto tempo tomou formas dentro de mim que, agora em que tudo está acontecendo, eu não sei como agir. É o famoso giro de 180° graus que a vida nos dá. Eu estava no Brasil, agora me vejo no Japão e tudo está de cabeça para baixo.
Boas oportunidades requerem um nível alto de responsabilidades. Mas, como proceder, se olho-me no espelho e não vejo uma adulta, mas sim uma criança assustada...
É, talvez eu seja uma criança assustada, que saiu do abrigo dos pais para brincar mais longe e se perdeu no caminho.
Agora, sou eu quem faço o meu caminho. Venha o que for, eu me adpto!
Toda vez é a mesma coisa quando passo por aqui, algumas pessoas dormem, outras se interessam por olhar. Eu sou a da turma dos que se interessam, e muito além de me interessar eu admiro, reflito, rio.
Quando o ônibus chega ao lugar mais alto do percurso, logo pela manhã, os primeiros raios de sol se refletem na superfície da água e a faz parecer prata derretida a banhar minha pequena ilha. Ao fundo como coadjuvantes estão os navios, longe, indefesos, parecem mais patinhos raquíticos, mas ainda há certa graça em vê-los. No fundo, eu sei que patinhos feios acabam por virar cisnes no final da história.
O ônibus ronca mansinho subindo a ponte, eu olho para as pessoas que dormem, tenho vontade de acordá-las e dizer o quanto ignoram os sinais de Deus no decorrer do seu dia. Mas, tudo bem, contenho-me. Algumas delas trabalham o dia inteiro, além de cuidar da família, dormem tarde, para no final de tudo, faltar mês no final do salário e sobrar, desespero.
Deixem-nas dormir, então! Sonhos melhores para ti, vizinho que dorme no banco em frente ao meu!
No fone de ouvido toca uma música qualquer, não me importo, dentro de mim a canção é outra, perceptível somente a mim, sem perigos de microfonia.
Pela janela o vento gelado bate em meu rosto, vejo as rochas envoltas pelo mar prateado, e no mais alto de uma delas, uma casinha branca. É a casinha da mãe de Deus. É como se todos os dias, seu filho amado a presenteasse com cores e imagens, daquelas que mais alegram o dia de réles mortais como eu. Ao passar na frente da casinha imaculada, como sempre, faço o sinal da cruz. Tem hábitos e crenças que não nos largam mesmo com o passar do tempo, o que não é normal, em geral o tempo nos leva tudo. Mas a minha fé, a minha fé não há de se perder com o tempo.
A vista a noite, na volta pelo mesmo caminho, não perde em nada pela manhã. Ainda dá para ver o mar, dessa vez, negro e brilhante, cor de jabuticaba. Mas, o que chama atenção mesmo são as luzes da cidade, mil vaga-lumes a iluminar a ilha.
Os prédios altos também compõem o visual com as suas vestimentas brilhantes e polidas, vitrais impecáveis que refletem as luzes noturnas da cidade e me faz pensar se toda noite deveria ser vista como um baile de gala ou uma discoteca com seus paetês gigantes. Os prédios dançam, sorriem, mostram suas gentilezas para com os outros convidados. Mas, que engraçado, pela manhã parecem ser executivos tão formais, seus aspectos imprimem tédio e melancolia, deve ser a ressaca de todas as festas noturnas.
A viagem chega ao fim, chego ao chão, ao meu destino. Sei que se tivesse um par de asas não entenderia a beleza vista do alto. Há coisas que só podemos desfrutá-las entendendo nossa real condição, a de ser humano. Embora, poucos façam a reflexão de se humanizar.
Não sou dona da verdade, mas também, como poderia de sê-la? Conto mentiras, não o tempo todo, mas elas saem por assim dizer, soltas como folhas ao vento, que de tão miúdas seriam imperceptíveis, se não fosse o próprio vento a desalinhar os cabelos e pelas minúsculas partículas de poeira a quase cegar-te os olhos.
Eu não tenho a pretensão de cegar-te, disse isso no pequeno papel que escrevo como forma de entreter minh'alma triste, que anda por aí com uma das asas na mão, um querubim deficiente. Imagine a tristeza deveras que é ser criado para voar e perder-se uma asa? Tantos lugares inalcançáveis, intransponíveis que talvez nunca mais sejam vistos novamente.
Mas, quem me conhece sabe que não usaria de mentiras para prejudicar um amigo.
Quem me conhece sabe o que se passa no mais fundo âmago do meu ser.
Vejam só, que calúnia do destino!
__ Meu querubim, porque quebraste uma asa?
__ Estava voando na imensidão azul do céu, tendo a certeza em meu coração de que aquela que eu mais queria cuidar, para que seu pé não tropeçasse em uma pedra, confiasse que não a quero mal. Mas, tacaram pedras em minha pobre asa, vejam só! Despenquei cada vez mais e mais fundo. Quando cheguei ao chão percebi com surpresa, aquela em que eu cuidava e queria bem estava assistindo a tudo e não me socorreu.
Vi-la de mão dada com meu agressor a perder-se no horizonte.
Enquanto eu, pobre criatura agora aleijada, daqui vejo as sombras daqueles que ainda pouco foram embora. Logo eu, que a ampararia em qualquer queda.
E agora, o que se há de fazer?
__ Não há nada a se fazer pois não a nada a se esperar das pessoas, a não ser o esquecimento. Crê em mim! É menor o sofrimento de não se decepcionar.
E antes de cuidar de alguém assegura-te que cuidas de ti mesmo, para que ninguém o acerte com outra pedra . Mas, se caso não concerte tua asa não fique triste! Pois, irás comprovar minha teoria de que as asas dos anjos devem ser igual a confiança dos homens, uma vez quebrada não há de ser restaurada, não há de voltar a ser como d’antes.